Ficha artística
- Texto: Augusto Sobral
- Encenação: Rogério Vieira
- Figurinos: Jasmin
- Música: Rui Luis Pereira
- Intérpretes: Silvina Pereira, Manuel Cintra, Fernando Nascimento
- Figurinos: Ana Andrade
- Direcção musical: Rui Luís Pereira, João Lucas (Piano)
- Cenografia/Espaço cénico: Augusto Sobral
- Adereços: José Gil
- Desenho de Luz: Rogério Vieira, Alfredo Brito
- Fotografia: Luís Carvalho
- Cartaz: Guida Dias Coelho
Estreado a 13 de Junho de 1987 na Casa dos Tabuenses em Lisboa
Cartaz
Imprensa
As palavras dos outros
"Bela-Calígula torna-se pedra branca nas biografias de Augusto Sobral, Rogério Vieira, Silvina Pereira e Manuel Cintra"
Fernando Midões, Diário Popular
Textos
O que possa haver de Pirandeliano em «BELA CALÍGULA», é resultado da pré-existência das personagens, Florbela Espanca e Gaius Germanicus, que foram adquirindo corpo junto da minha mesa de trabalho, depois de uma intensa e longa leitura na qual em cada página, referente a um ou referente a outro, mais se aproximavam no processo subjectivo, quanto mais distante e esbatido ia ficando todo o trabalho de levantamento dos respectivos enquadramentos históricos ou simplesmente épocais.
De toda a informação recolhida acabava por ter maior eco em mim, aquela que num estudo histórico rigorosa seria insignificante.
E, pouco a pouco, ia-se desenhando um conflito imaginário, tão profundamente interiorizado que era cada vez mais entusiasmante.
Poderia esse conflito imaginário ter um desenvolvimento autónomo?
Poderia dispensar a comunicação da investigação que o determinava?
Era evidente desde o princípio que não. Haveria de criar com a própria linguagem uma ponte entre o imaginário e o documento, partindo da desmontagem do próprio processo de criação teatral, construindo, destruindo, e reconstruindo.
Este confronto de várias linhas trouxe-me à memória os clássicos «impromptus» de Moliére, que por motivos óbvios me recuso a traduzir por «improvisos», onde a pretexto da desmontagem do teatro se abria caminho para o confronto de tudo quanto se quisesse trazer a público, desde as grandes questões , às questiúnculas.
As grandes questões surgiram logo na própria elaboração do texto, paralelamente ao desenvolvimento do tema que a presença das personagens sugeria.
Uma delas impunha, implicitamente a relação entre Teatro e Poesia.
A escrita impunha que integrada no Teatro a Poesia teria de ser acentuada no valor da palavra, no vocábulo com toda a extensão da sua ambiguidade.
Portanto, hoje e aqui, representa-se Teatro da Palavra, capaz por si própria de erguer sensações visuais e auditivas, além do seu sentido vocabular.
E portanto, também, se representa Teatro de Arte de Actor, o único agente capaz de operar essa transformação da palavra, a mesma, em quantas forem as situações que o próprio actor seja capaz de interiorizar.
Difícil?
Com certeza que sim, dificílimo. Mas não creio que possa existir Teatro, sem isso.
Augusto Sobral