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Espectáculos
O Rei e a Rosa 1990
De Filipe Petronilho

Ficha artística

  • Texto: Filipe Petronilho
  • Direcção: Silvina Pereira
  • Cenografia: Alfredo de Brito
  • Figurinos: Ana Andrade
  • Selecção musical: Carlos Acheman
  • Intérpretes: Alfredo Brito, Isabel Fernandes, Silvina Pereira

Estreado a 24 de Maio de 1990 na Casa dos Tabuenses em Lisboa

Cartaz

Imprensa

O espectáculo

Não corre em mar de rosas o teatro português, a sombra que um dia se deitou para definitivamente descansar na cama lusa, continua ainda na grande noite de repouso, à espera de algum pós-moderno despertador, que a estremeça violentamente, cruelmente, para que com todas as palavras teatralmente possíveis, a faça precipitar no atlântico suspiro dos ausentes. E isto torna-se trágico se não soubermos, logo à entrada do labirinto da saudade, «distinguir se o nosso passado é o nosso futuro ou se o nosso futuro é o nosso passado”. Mas talvez consigamos resolver a contradição se recorrermos à qualidade genética de sermos netos de Pessoa, e como tal, herdeiros de uma natureza sonhadora, mas desperta, ocupada não no fazer, mas sim no esperar. Espera para nada e para ninguém, é o maior ruído, o maior grito que esse relógio-despertador pode soar na Hora do Teatro Português receber as graças da luz.

Escrever uma peça de Teatro em Portugal é, imediatamente e lucidamente, escrever para o a-teatro português. Isto é, sentir o peso dramatúrgico da quantidade de peças já escritas em português. O resto sabemos nós: são raras as que alcançam a verdadeira alma teatral. Corremos todos os riscos sem alternativa, não obstante suportá-los.

A experiência que o Teatro Maizum vive, é prolixa em amigar-se com o que teme com o que não tem o teatro. É esta grandeza que faz, por modesta que seja, libertar a fantasia e a ousadia de ser livre.

Poderíamos neste momento ser mais um Clov de Beckett, que num sobressalto de revolta, interroga: «Mas para que é que eu sirvo?». De imediato Hamm diz-lhe derradeiramente: «Para me dares réplica.» è neste sentido (qual sentido?) que a fraternidade é furiosa, severamente dramática, e pede a Godot que empobreça/enfraqueça ainda mais e nos faça conhecer e excluir. Por amor.

Filipe Petronilho